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O Sumiço de Gandalf

Meditação de “O Hobbit: Cordeiro Assado”

A construção do mundo fictício dos livros “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, escritos por J.R.R Tolkien, traz-nos algumas boas reflexões acerca da prática das virtudes. Falando do primeiro título, Pe. Paulo Ricardo diz: “A temática do livro, embora não seja diretamente a questão religiosa, conduz-nos de alguma forma a esta luta contra o mal, na qual Deus está implicitamente presente”. Levando isso em consideração, trouxe aqui algumas meditações sobre o segundo capítulo de “O Hobbit”, intitulado “Cordeiro Assado”.

Breve Introdução à História

O livro conta-nos a história de Bilbo Bolseiro, um pequeno hobbit que, assim como os outros Bolseiros, não gosta de aventuras.

A jornada começa quando Bilbo conhece Gandalf e os anãos. Estes acabam por despertar — mesmo que lentamente, em Bilbo — seu lado aventureiro, o qual permanecia adormecido. O hobbit é então chamado por eles para uma jornada, e esta começa no capítulo dois do livro.

Nesta meditação, não vou me deter muito em contar a história; contentar-me-ei com os acontecimentos necessários à reflexão.

O heroísmo de Gandalf - Início da meditação

Começando a viagem e passando pelas terras dos hobbits, eles chegam às chamadas Terras-solitárias, nas quais — diferentes das anteriores — não havia pessoas e as estradas eram ruins. O tempo não estava bom e, naquele dia, “tudo parecia tristonho”. Andavam com seus pôneis pelas trilhas lamacentas e reclamavam da chuva que molhava as suas roupas secas e as suas bolsas com comida. O vento ficara muito forte e a noite já chegava quando Thorin, líder dos anãos, resmungou: “E onde vamos achar um pouco de chão seco para dormir?”. Nesse momento, todos se deram conta de que Gandalf havia sumido.

Em meio a toda essa situação, Tolkien destaca em Gandalf um comportamento diferente dos demais: “Era o que tinha mais comido, mais conversado e mais rido.” Ao que completa dizendo: “Mas agora simplesmente não estava mais lá”. E continuaram os outros a reclamar: “Justo quando um mago seria mais útil”.

Por que? Qual o motivo de Gandalf ter um comportamento diferente dos outros?

Desde o começo da obra ele se mostra como um personagem claramente mais forte e, analisando essa circunstância adversa, claramente mais virtuoso. Nota-se facilmente o caráter heróico de Gandalf, não no seu sentido cinemático-ficcional, mas no seu sentido cristão: alguém que faz as coisas à semelhança de Deus.1 Essa virtude é vivificada pela caridade, uma vez que pelo amor o homem se torna outro Cristo.2

Prosseguindo na história, Bilbo e os anãos foram buscar um local para acampar e encontraram um cujas árvores os protegiam da chuva. Porém, as simples gotas que pingavam de suas folhas devido ao forte vento era para eles um grande incômodo. Mostram-se, assim, menos virtuosos do que Gandalf. Aqueles reclamavam das gotas da chuva, este se divertia quando a situação lhe era mais desfavorável.

O sábio mago entendeu que a perfeição exige uma fortaleza heróica. Isso também entendeu Santa Teresa d’Ávila e por isso exortava às monjas: “Parece-me coisa imperfeita, irmãs minhas, esse queixar-nos sempre de males insignificantes. Se os puderdes sofrer, não o façais assim”. Precisamos suportar as vicissitudes com amor, sejam elas grandes, sejam pequenas.

À semelhança da criança que não se surpreende e humildemente aceita a correção merecida após um erro, coloquemo-nos como merecedores das adversidades e olhemo-las como formas de amar a Jesus e de nos santificar.

Postos de joelhos o entendimento e a carne, diz São Josemaria Escrivá, será fácil chegarmos a Jesus, pelo caminho seguro da miséria humana, da miséria própria, que nos leva a aniquilar-nos, para deixar que Deus construa sobre o nosso nada… a vontade varonil, que tem todos que são espiritualmente pequeninos, levanta-se, obrigando a inteligência a render-se.

Santa Teresa também considera a importância da mortificação a fim de adquirir a virtude. Ela nos exorta a contradizer a nossa própria vontade, mesmo com coisas pequenas, para sujeitarmos por completo o corpo ao espírito.3 Essas coisas pequenas não podem ser negligenciadas; devem ser tratadas com muita diligência, pois, como diz a mesma santa: “crescem como espuma”.

O Sumiço e o retorno - A importância da meditação e o que meditar

Partamos a considerar as ações de Gandalf. Mas, antes, deixe-me explicar o que aconteceu no tempo do qual ele permaneceu fora de cena: ainda naquela noite, querendo acender uma fogueira, Oin e Gloin, dois dos anãos, começaram a brigar; Fili e Kili quase se afogaram tentando recuperar um pônei fugitivo e aquilo que ele carregava (não conseguiram); e todo o bando quase morreu lutando contra três trols gigantes na floresta.

Quando estavam prestes a morrer, Gandalf chega e os salva. Depois disso — já aliviados das provações —, vasculharam a toca dos trols e foram dormir para continuar sua jornada. Tendo já tornado ao caminho rumo ao destino final, Thorin e Gandalf dialogam:

— Para onde é que você tinha ido? — perguntou Thorin
Fui olhar adiante – respondeu Gandalf
— E o que te trouxe de volta na hora exata? — replicou o anão
Olhar para trás — respondeu

O “olhar adiante” e o “olhar para trás” nos comunicam uma necessidade que talvez não fique muito explícita ao ler a história; tentarei explicar conforme pude entender. Essas duas coisas parecem representar dois diferentes tipos de meditações, as quais Gandalf fazia naquele momento quando estava longe da confusão.

O “olhar adiante”

Diante das respostas de Gandalf, Thorin pede para que ele fosse mais específico; o sábio mago então diz ter ido espiar a rota deles, que logo se tornaria perigosa e difícil. Essa primeira resposta representa a meditação da morte.

Ele havia entendido que para viver prudentemente deveria estar sempre preparado para a morte: “Lembra-te do teu fim, e jamais pecarás” (Eclo 7,40). Assim como Gandalf, outro homem muito sábio que havia entendido isso foi Jó, que, pensando na morte, dizia: “Eu disse à podridão: tu és meu pai! E aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã” (Jó 17,14). E com este pensamento se fez santo.

O capitão, diz São Boaventura, para bem governar a embarcação, se coloca na sua extremidade traseira. Assim o homem, continua o santo, para que a vida lhe corra bem, deve imaginar sempre como estará na hora da morte. De forma semelhante, Gandalf se antecipa aos perigos que estão por vir e se prepara para quando eles chegarem.

O “olhar para trás”

Reflitamos então sobre o que fez ele voltar: tendo recebido a notícia de que três trols estavam atacando viajantes, teve a sensação de que seus amigos precisavam dele e, “olhando para trás” — disse ele — “vi uma fogueira ao longe e fui na direção dela”.

O “olhar para trás” parece representar a meditação das ações; um exame de consciência no qual se reflete as más ações feitas no passado e como proceder no presente. Essa é justamente a primeira coisa a se fazer quando nos colocamos em oração.4

Hugo de São Vítor diz que quanto mais diligentemente o homem examinar suas ações, melhor ele se torna no agir bem.5 De dia e de noite devemos fazer esse exame não somente como forma de arrependimento, mas para que não sejamos mais enganados pelo inimigo e possamos proceder da forma correta.6

O sumiço propriamente dito

Tendo já entendido tudo isso, vamos entender o que pode significar o sumiço em si. Entendo o sumiço como o tempo quando Gandalf esteve em “silêncio” em meio a agitação.

O silêncio representa, precisamente, a oração de meditação (ou oração mental). Essa é imprescindível para nossa salvação,7 porquanto é nela que mais crescemos no amor a Deus. E por isso dizia o salmista: “Na minha meditação acendiam-se chamas de fogo” (Sl 38, 4), e comentando, dizia Santo Afonso: “A meditação, pois, é aquela beata fornalha onde se acende o divino amor”.

Para bem meditar, precisamos de uma companhia, conforme diz Santa Teresa;8 e quem melhor do que o próprio Senhor? Por isso, nessa oração, vamos ao encontro de Deus e tudo quanto precisamos fazer é voltar nosso olhar para Ele.9 Para bem fazer isso, Santa Teresa nos dá alguns conselhos: saber quem está rezando (eu, pecador) e com quem se está falando (o Deus que tem um amor inefável).

Abaixando-nos para encontrar o Bom Deus, certamente o encontraremos, conforme diz a mesma santa: “Sei que nunca nos deixa o Senhor tão abandonados que não nos venha fazer companhia se nos chegarmos a Ele e lho pedirmos com humildade. Se em um ano não lograrmos vitória, seja em mais anos! Não lamentemos tempo tão bem empregado!”.

Moderação das palavras

O silêncio também pode representar a moderação das palavras em meio a agitação. Muitas vezes, falar demais nos deixa mais suscetíveis ao erro e mais facilmente nos irritaremos ou falaremos algo do qual não deveríamos falar.10 Por isso diz o apóstolo São Tiago: “Seja todo homem veloz para ouvir, porém lento para falar e lento para irar-se” (Tg 1, 19).11

Percebemos claramente a importância dessa moderação ao ver que Oin e Gloin, permanecendo na agitação, começaram a brigar. Estai certos de que “não faltará pecado na fala excessiva, e tu não fugirás dele te entregando ao falatório” (Pr 10, 19). Gandalf mostra-se novamente virtuoso ao não usar de palavras para ofender.

Obs.: Devo deixar claro que para tudo tem o seu tempo, há tempo para falar (como quando estamos com amigos) e tempo para silenciar (como quando estamos em oração). O que importa é que tenhamos moderação em nossa fala a todo o tempo.12

Considerações finais

Se é verdade que um dia haveremos de morrer, como dizem as Sagradas Escrituras,13 verdade também é que não sabemos nem o dia nem a hora. Este momento Deus por bondade nos oculta, conforme diz São Gregório: “Quanto à morte, estamos na incerteza, para que a ela cheguemos sempre preparados”.14 Apesar disso, são muitos aqueles que vivem quase esquecidos dela, e miseravelmente acham que podem viver por muito mais tempo.15

Mas louvado seja Deus por todos os avisos que nos dá: “Se não vos converterdes, vibrará sua espada” (Sl 7, 13). Muitos, entretanto, não querendo emendar-se, acham que vivem em paz e são surpreendidos com uma morte repentina: “Quando disserem ‘paz e segurança’, então lhes sobrevirá uma destruição repentina” (1Ts 5,3). Devemos entender e lembrar aquilo que diz Santo Agostinho: “Aquele que grita a ti não quer ferir-te”.

E cientes de que para chegarmos a Deus é necessário humildade, abaixemo-nos, pois essa é uma das características do amor, conforme o que diz Santa Teresinha: “É próprio do amor abaixar-se”.16 Se formos humildes, Deus ouvirá nossa oração: “A oração do humilde penetra as nuvens; ele não se consolará, enquanto ela não chegar a Deus, e não se afastará, enquanto o Altíssimo não puser nela os olhos. (Eclo 35, 21).

Notas


  1. Meditação “O Segredo dos Santos”, por Pe. Augusto Dantas.
  2. “Para explicar-me melhor, recordo de ter ouvido de uma serva de Deus que, estando em oração, o Senhor não lhe ocultou seu amor pelos seus servidores, mas lho revelou, dizendo entre outras coisas: "Usa a tua fé e fixa o pensamento em mim; verás a dignidade e a beleza do homem! Mas além da beleza que lhe provém da criação, presta atenção nestes que estão revestidos com a roupa nupcial da caridade, adornados com tantas e tão belas virtudes. Eles se acham unidos a mim pelo amor. Se me perguntares quem são - assim continuava o doce e amoroso Verbo -, direi que são um outro eu. Eles destruíram a vontade própria, revestiram-se da minha vontade, uniram-se a ela, a ela se conformaram". Realmente, é pelo amor que o homem se une a Deus.” - Livro: O Diálogo
  3. “Aos pouquinhos, contrariando nosso apetite e vontade ainda em coisas miúdas, como já disse, adquiriremos o hábito da virtude até sujeitar por completo o corpo ao espírito” - Santa Teresa d’Ávila
  4. “A primeira coisa, já se sabe, é examinar a consciência, dizer a confissão (Rezar o Confiteor [Eu, pecador, confesso a Deus todo poderoso…]) e fazer o sinal da Cruz” - Santa Teresa d’Ávila
  5. “O homem se torna tanto mais perito no bem agir quanto mais diligentemente examina as suas ações e se esforça por superar a si mesmo quotidianamente ao meditar o que faz, o que deveria fazer, se faz aquilo que deveria fazer, se o faz na quantidade e qualidade necessárias, se mistura algo mau a uma obra boa, se dedica a devoção necessária a um bem que faz, se ama a boa ação alheia como ama a sua e se repreende uma ação má sua como repreende a ação má do outro.” - Hugo de São Vítor
  6. “Se acaso tenha feito algo que não devia, se porventura tenha caído nas insídias do inimigo em alguma obra sua, poderá precaver-se de ser enganado depois, de tal modo que uma tentação futura não o tome desprevenido e o lance a uma obra má, nem a negligência o afaste de uma obra boa.” - Hugo de São Vítor
  7. “Quem não pratica a oração mental dificilmente reza e, não rezando, certamente se perderá” - Santo Afonso
  8. “Procurai logo em seguida [depois do Confiteor], filhas, achar companhia, pois estais sós. E que melhor haverá que a do próprio Mestre que ensinou a oração que ireis rezar [falava do Pai Nosso]? Fazei de conta que tendes o próprio Senhor junto de vós… Crede-me; quanto puderdes, não estejais sem tão bom amigo.” - Santa Teresa
  9. “Não exijo agora que penseis nele, nem que formeis muitos conceitos, tampouco que façais com o entendimento elevadas e delicadas considerações: só vos peço que o olheis. Ora, quem vos impede de volver os olhos da alma a este Senhor, ainda que seja de relance, se o não conseguis fazer durante longo tempo?” - Santa Teresa
  10. “A fala excessiva dá origem a controvérsias, as quais induzem a língua a injuriar e maldizer; a maledicência, todavia, inflama o espírito para a ira e, o que é mais grave, para o ódio entre os irmãos” - Hugo de São Vítor
  11. “E vede quão acertadamente, depois de proibir a fala excessiva, acrescentou um preceito contra a ira… para mostrar que aquele que não quer conter sua língua não pode manter seu espírito longe do furor da ira.” - Hugo de São Vítor
  12. “Afastai vossa língua não somente das palavras vazias, mas também tende moderação nos assuntos retos, e buscai mais ouvir as coisas santas do que ensiná-las” - Hugo de São Vítor
  13. “Tu és pó, e em pó te hás de tornar” (Gn 3, 19); nessa e em outras passagens.
  14. Diz também Santo Agostinho: “O último dia se oculta, para que se considerem atentamente todos os dias”
  15. “Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver por mais três ou quatro anos.” - Santo Afonso
  16. Isso foi exatamente o que Jesus fez por amor de nós. “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Fl 2, 6-8)

Referências